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domingo, 31 de janeiro de 2016

A Serra Rasa de Pataias

A Serra Rasa de Pataias

O termo de “serra rasa” ocorre na geologia referindo-se a uma serra que foi, em tempos, de altura considerável, mas que a erosão reduziu até ao ponto de se achar a reduzidas altitudes.
Muitas destas “serras rasas” encontram-se associadas a anticlinais. O termo da “serra rasa” de Pataias foi referido pela primeira vez por Paul Choffat na sua obra “Passeio Geológico de Lisboa a Leiria”. Choffat refere-se à “serra rasa” à cumeada já gasta pela erosão, entre Pataias e Leiria.

Um anticlinal, refere-se a uma dobra convexa na direção dos estratos mais recentes, ou seja, dobras nos estratos geológicos cujos flancos mergulham em sentidos opostos.

O anticlinal em Pataias está associado ao vale Tifónico das Caldas da Rainha que se estende entre Pataias, Valado de Frades, Famalicão, Alfeizerão e S. Martinho do Porto. Este anticlinal tem a sua origem em camadas depositadas num fosso alongado denominado Bacia Lusitânica (uma área de 275km x 150km ao longo do litoral centro do país), associada à abertura do Atlântico e posteriormente remobilizada por atividade tectónica compressiva.

Por outras palavras, os estratos estão inclinados e a subir do lado do oceano para o interior, como é visível, aliás, no promontório do Sítio da Nazaré.  A linha de cumeada (limite da fratura e do vale diapírico), prolonga-se no sentido SW-NE, dando origem à instalação de alguns vértices geodésicos, como o da Aguieira (Nazaré) e Poços (Outeiro dos Seixos) e visível em Pataias, por exemplo, no adro da igreja, através da vista sobre a depressão até aos Montes e Serra dos Candeeiros.

É esta linha de cumeada a parte mais elevada da denominada “Serra Rasa de Pataias”.


Fig. 1 - Representação esquemática do Anticlinal e do Sinclinal

Fig. 2 - Representação esquemática da geomorfologia da região


Fig. 3 - Estrutura geológica da região

Fig. 4 - Representação esquemática das estruturas geológicas e geomorfológicas da região

Fig. 5 - Localização esquemática de lugares ao longo dos acidentes geomorfológicos da região

Fig. 6 - Promontório do Sítio da Nazaré. Repare-se na inclinação dos estratos geológicos

Fig. 7 - Bacia Lusitânica

Fig. 8 - A Serra Rasa de Pataias
Fig. 9 - A Serra Rasa de Pataias, com representação do anticlinal

Fig. 10 - As formas de relevo na região

sábado, 26 de junho de 2010

Água de Madeiros, Pedra do Ouro e Polvoeira

Água de Madeiros é um dos três locais do concelho de Alcobaça identificados pelo LNEG – Laboratório Nacional de Energia e Geologia – como um “Geo-Sítio”, ou seja, sítio de interesse geológico. Os outros dois são as arribas de Vale Furado a Paredes da Vitória e as arribas da praia dos Salgados.
O corte de Água de Madeiros, que se estende da Pedra Lisa até à Polvoeira, identificado como de importância regional, tem elevado interesse didáctico, estratigráfico e sedimentológico.

O interesse em Água de Madeiros advém, não só, daquilo que é conhecido como o corte geológico de Água de Madeiros, mas também à identificação da Formação de Água de Madeiros. Por outras palavras, são visíveis em Água de Madeiros diversas camadas de calcário margoso acinzentado, alternadas com níveis de margas “xistentas”, ricas em matéria orgânica, sendo possível identificar diversos fósseis de amonites, belemnites e bivalves. Nos níveis superiores das falésias de Água de Madeiros, apresenta acumulações de amonóides (Echioceras e Gemmellaroceras, por exemplo) e restos de peixes.
Quanto à Formação de Água de Madeiros, esta é caracterizada por calcários bioclásticos com intensa bioturbação e conteúdo fossilífero diverso, sendo constituída por dois membros: Polvoeira (na base) e Pedra Lisa (tecto). É possível ainda observar, da base para o topo, maior abundância em lamelibrânquios e braquiópodes. No topo desta formação – Membro da Praia Lisa – predominam os calcários relativamente às margas, evidenciando-se a biozona Raricostatum.
Ao longo do corte de Água de Madeiros, é ainda frequente a ocorrência de fácies de margas negras, por vezes betuminosas. Estas rochas têm bastante interesse científico, devido ao facto de apresentarem ao estudo directo, níveis correspondentes às formações portuguesas com maior potencial como rochas-mãe de hidrocarbonetos.
Para a existência de hidrocarbonetos é necessário encontrar três tipos de rochas: rochas-mãe, como aquelas que são visíveis nas arribas da Pedra do Ouro; rochas-depósito, como aquelas que se encontram, aparentemente, na Mina do Azeche (mina de asfalto do Canto de Azeche 1848-1861); rochas-selantes, que serão os calcários cretácicos existentes na região. Ou seja, a existir petróleo, será por aqui.
É neste contexto que se desenvolvem as arribas da praia da Pedra do Ouro.
Inicialmente conhecida por Pintanheira, esta praia viu a sua designação alterada para “Pedra do Ouro” já durante a segunda metade do século XX, designação confirmada actualmente.
A adopção do nome “Pedra do Ouro” estará relacionada com os estudos geológicos realizados e a descoberta da presença nas arribas negras da praia, de fósseis de amonites piritizadas (sendo que a cor da pirite é dourada).
Estas arribas, do Jurássico Inferior, apresentam uma quantidade muito significativa de matéria orgânica disseminada (aproximadamente 15%), o que é um outro excelente indicador para a formação de hidrocarbonetos. O ambiente anóxico existente aquando a sua formação criou condições que permitem a conservação da matéria orgânica, assim como o desenvolvimento de pirites nas conchas.
As arribas são ainda geologicamente ricas em calcite, que desagrega quando sujeita a elevadas temperaturas. A presença de alguns fornos sobre as arribas – em conjugação com os materiais geológicos aí existentes – podem indiciar a produção artesanal de cimento.
Estas arribas, de cor muito escura, são datadas do Jurássico Inferior e constituídas por calcários margosos e margas (embora com maior componente argilosa).
Quanto à Polvoeira, o afloramento rochoso visível integra ainda a unidade geológica observável desde a praia de Água de Madeiros. É caracterizada por uma grande diversidade de fósseis do Jurássico Inferior, nomeadamente lamelibrânquios e braquiópodes.
No entanto, o maior destaque vai para o prolongamento da arriba rochosa pelo mar dentro. Este prolongamento acaba por funcionar como se fosse um recife – que não é –, quebrando a força do mar e fazendo uma baía aberta. É esta particularidade geográfica que em conjunto com os registos históricos transformam a Polvoeira como uma das prováveis localizações do desaparecido porto de Paredes.
Por outro lado, se tivermos em consideração o recuo da arriba e da linha de costa (dada a natureza mais frágil dos materiais que a constituem ), chegaremos à conclusão que, muito provavelmente, não haveria espaço físico entre o "recife" da Polvoeira e a arriba para a instalação do porto, há 500-1000 anos atrás.
Atendendo ainda à evidente erosão do Castelo das Paredes (que tem “desmontado” o promontório rochoso a grande velocidade); ao possível assoreamento quer da praia quer do vale, ou seja, o mar chegaria quase aos moinhos (só possível confirmar com análises ao subsolo, mas uma evidência do assoreamento recente do litoral da região são o desaparecimento quase total das lagoas da Pederneira, de Alfeizerão e Óbidos), poder-se-á apontar o porto de Paredes a Sul do Castelo, ou numa outra localização que não a actual praia da Polvoeira. Mas efectivamente a localização do antigo porto é impossível de determinar com as informações actuais.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

A Mina do Azeiche e as arribas dos Valinhos e Vale Furado.

A Mina do Azeiche fica localizada a Sul da praia de Paredes da Vitória. O seu nome, provavelmente, deriva da localização de uma mina de asfalto.
A mina propriamente dita, tem o seu início em 1844 com a descoberta de uma mina de asfalto. É nesta mina que se vão realizar as primeiras explorações petrolíferas em Portugal. A primeira concessão, para a exploração de produtos betuminosos data de 1848, prolongando-se até 1861, embora a exploração ocorresse de forma irregular. Durante esse curto período, foi do Canto do Azeche (designação, à altura, do lugar) que foi extraído o betume utilizado para asfaltar todas as estações de caminho-de-ferro de Lisboa até Elvas e do Entroncamento até ao Porto. A reduzida viabilidade económica traduziu-se no seu encerramento.
Ainda durante o início da década de 1990 era possível aceder ao interior da mina, apesar dos evidentes sinais de derrocada. A entrada da mina dava acesso a um túnel que conduzia ao “poço”. O acesso ao fundo deste poço, onde era extraído o asfalto, era feito através de uma escada em caracol.
A localização da mina, quase na base da vertente; os materiais geológicos aí existentes (arenitos e complexos margo-argilosos); e a forte acção do mar do mar sobre a base da arriba contribuíram, definitivamente, para que a mina acabasse por desabar.
No entanto, são ainda visíveis algumas ruínas da mina, assim como um antigo respiradouro.
No entanto, o interesse sobre estas arribas não termina com a mina de asfalto. Nestas arribas, que se estendem por mais de 2 km em direcção a Sul (Vale Furado), são visíveis afloramentos do Cretácio Inferior e Superior (145 a 65 milhões de anos) e do Terciário, depósitos esses normalmente associados à formação do Bom Sucesso. Estes depósitos assentam por discordância angular em calcários do Cretácico.
É neste conjunto de rochas com 92 milhões de anos que estão representados dois conjuntos separados por superfície de descontinuidade. O inferior, é constituído por conglomerados, arenitos e lutitos avermelhados, atinge 70m de espessura. O tecto das sequências corresponde a paleossolos carbonatados representados por níveis concrecionados. O conjunto está datado do Luteciano a Bartoniano inferior. Foram ali recolhidos fósseis de Iberosuchus macrodon (crocodilo), Paralophiodon cf. leptorhynchum (grupo de tapires) para além de outros crocodilos, quelónios e pequenos mamíferos não identificados.
Os níveis superiores são constituídos por arenitos amarelos, geralmente grosseiros, às vezes consolidados, atingindo 40m de espessura. Forneceram fósseis de Paranchilophus lusitanicus (equídeo). Estão atribuídos ao Bartoniano superior.
Geologicamente aflora nas arribas um complexo greso-argiloso, onde sobressaem níveis argilosos vermelhos.
Ainda nestas arribas é possível identificar diversas anomalias geológicas petrográficas e químicas, nomeadamente vestígios de fragmentos de uma rocha escura que foram identificados por geólogos como resultantes do impacto de um grande meteorito, que ao colidir com a superfície terrestre terá formado uma grande cratera de impacto, conhecida como “Cratera de Thor”, e ejectado fragmentos pelas regiões periféricas.
São estes fragmentados ejectados, de cor negra, que aparecem destacados em rochas calcárias de cor clara, nas arribas da Mina do Azeiche e Valinhos (mas também, em menor quantidade, na praia das Paredes da Vitória e Vale Furado). De acordo com algumas investigações, estes vestígios, conhecidos como o “ejecta”, terão sido provenientes deste impacto. A presença de uma anomalia de Irídio – uma elevada concentração deste elemento encontrado na transição do Cenomaniano-Turaniano – é prova de um mega impacto de um meteorito de grandes dimensões, que terá tido consequências tão gravosas que terão provocado uma série de acontecimentos que culminaram na extinção de uma grande número de espécies, incluindo a conhecida extinção dos dinossáurios, no final do Cretácico. O alinhamento do afloramento destes vestígios do “ejecta” na direcção da mega “Cratera de Thor”, e o facto de apresentarem uma estrutura microcristalina típica de condições de forte impacto, constituem, de acordo com alguns geólogos, argumentos que apoiam a teoria de que estes fragmentos, são provenientes do mega impacto meteorítico que vieram a provocar a extinção dos dinossáurios.
Os vestígios desta cratera são bem visíveis no fundo oceânico, correspondendo a uma montanha marinha denominada Torre que têm uma forma elíptica com 122 Km de extensão segundo o eixo maior e 86 Km segundo o eixo menor.